Quinta-Feira, 26 de Março de 2026

ARTIGO: Itainópolis das minhas lembranças

Publicado em 01/02/2015
Por Marta Soares
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Francisco Ferreira, professor/Arquivo Pessoal


 

Nasci em 1956 na localidade Boiadas, situada na margem esquerda do rio Itaim, extremando, do outro lado do rio, com Gameleira e Telha, quando, ainda Itainópolis tinha apenas dois anos de emancipação político-administrativa. Lembro-me das vazantes de cebola, alho e batata, cultivadas nas areias do rio pela minha mãe. Corria rio abaixo, rio acima a procura de búzios de itan, talo de carnaúba e varetas de marmeleiro para fazer de conta que era bois e vacas, cavalo de pau e cerca de roça de faz de conta para brincar de lavrador e criador de gado. Lembro-me de todas as tardes, boquinha da noite, eu e meus pais íamos ouvi rádio na casa de Zeca Aprígio, na Gameleira. Na verdade eu gostava mesmo era da coalhada e do doce de leite que todas às vezes me ofertavam.  

Já tinha oito anos de idade e ainda não conhecia a cidade de Itainópolis. Um belo dia de festa de Nossa Senhora de Fátima, 13 de maio, meus pais me levaram à cidade. Tudo era encantador para mim. A minha primeira lembrança foi à vista, na entrada da cidade, de uma grande caixa d’água, o chafariz, que ficava no meio de uma praça, rodeado de torneiras derramando água em vasilhames e pessoas carregando latas d’água nos ombros, de carrinho e na cabeça. Foi uma cena indelével na minha memória, o monumento mais interessante que até então tinha visto. Encantou-me, também, uma casa com a sala e o corredor com piso de cimento queimado e a recomendação da minha mãe para ter cuidado de não escorregar e caí.

Vivi nas Boiadas até os nove anos de idade. Tempo Feliz! Meus pais se mudaram para Picos e depois para Colônia do Gurguéia, no Sul do Estado do Piauí, depois morei e estudei em Teresina. Passei 19 anos da minha vida fora da minha Itainópolis. Todavia, meu coração, minha alma e minhas raízes estavam indelevelmente fincados nas plagas do Itaim. Meu sonho de voltar para perto da minha gente era latente. Para que fortalecessem cada vez mais meus laços com a terra, casei com mulher do lugar.  

Com a esperança firme no meu propósito de voltar à terra natal consegui, em 1988, nomeação para um cargo no EMATER-PI e na direção da CNEC de Itainópolis. O trabalho exercido na CNEC teve grande repercussão na sociedade educacional do município, no qual criei o primeiro 2º grau de Itainópolis, hoje ensino médio, tendo recebido o apelido de “Francisco da CNEC” pela referência do trabalho prestado. Toda experiência foi gratificante e prestei relevantes serviços à comunidade pela CNEC e Emater. Ali se iniciava a realização do sonho de morar, novamente, na minha terra.

Lembro-me de como encontrei Itainópolis naquela época. Um município ainda carente de quase tudo. A zona rural era desprovida de infraestrutura de abastecimento de água, luz, saúde, educação e as estradas vicinais eram de péssima qualidade. A cidade, sede do município, era desajeitada, infraestrutura precária. O acesso a Picos se fazia por estrada de chão e poeira.  Era um sacrifício enorme se locomover para a cidade mais desenvolvida da região. O transporte de passageiro diário, de Itainópolis para Picos era feito por Chiquinho da Kombi, numa caminhoneta coberta de lona, que saia às seis da manhã e voltava à tarde, sempre lotada e desconfortável, que chegavam ao destino todas empoeiradas. O acento mais confortável era na cabine, mas era disputada por muitos e às vezes eram colocadas seis pessoas imprensadas naquela cabine. Na cidade não existia muitos veículos, tanto que quando passava um carro na rua, todos corriam para ver quem passava. Na cidade existia na época, apenas uma moto, adquirida pelo EMATER. Não existia escola de nível médio, apenas o fundamental até a 8ª série, este oferecido pela CNEC. A pobreza, principalmente nos anos de seca, era alarmante.

Ao completar 61 anos de emancipação política, Itainópolis contempla, atualmente, grandes mudanças. A zona rural está quase na totalidade com abastecimento d’água, energia elétrica e estradas vicinais trafegáveis. As pessoas possuem melhor qualidade e condições de vida, acesso a bens e serviços essenciais, celular, internet e escolas de nível fundamental e médio. Da mesma forma, na cidade, nesses últimos anos teve avanços significativos nas comunicações, nos equipamentos de atendimento público, na infraestrutura e educação. Hoje, centenas de pessoas possuem cursos superiores. Bom acesso e trafegabilidade para Picos, hoje feito em vans e micro-ônibus de boa qualidade. Quase todas as famílias possuem uma moto para se locomover. Itainópolis é um lugar agradável para se viver. Claro, que ainda precisa de muitas melhorias. Lugar de gente boa e hospitaleira. É bem conveniente o “slogan” que diz: “Viver aqui é tudo de bom”. E eu retruco: tenho orgulho de ser filho de Itainópolis.

Francisco Ferreira, professor

 

Comentários
Edimar Luz
16/06/2015 14:15:13
Bela crônica, caro amigo e colega (professor)Francisco Ferreira. Já dizia Olavo Bilac: "Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!". Parabéns!