Segunda-Feira, 05 de Outubro de 2026

Pesquisa identifica combinação de fatores que dificulta combate ao câncer de pâncreas

Publicado em 24/09/2026
Por Renata Arrais
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Estudo sobre Câncer de pâncreas/Foto: Reprodução

Uma pesquisa publicada na revista Cell Reports ajuda a explicar por que o câncer de pâncreas permanece entre os tumores mais difíceis de combater. O estudo aponta que a resistência não está relacionada a um único mecanismo: dentro de um mesmo tumor existem células com características diferentes e, ao redor delas, uma estrutura que dificulta a entrada de medicamentos e a ação das células de defesa.

A descoberta foi possível a partir da análise de tumores pancreáticos que ainda não haviam sido tratados. Os pesquisadores utilizaram técnicas de mapeamento espacial para identificar não apenas quais células estavam presentes, mas também como elas estavam distribuídas no tecido.

Esse mapeamento revelou que um mesmo tumor pode reunir diferentes populações de células cancerígenas. Entre os perfis encontrados estão os chamados clássico e basal. O primeiro apresenta, em geral, características menos agressivas. Já o segundo está associado a um comportamento mais agressivo e a uma resposta menos favorável aos tratamentos.

A presença desses grupos dentro de uma mesma massa tumoral ajuda a entender uma das dificuldades enfrentadas pelos médicos. Uma terapia pode atingir determinado conjunto de células enquanto outras permanecem resistentes e continuam se multiplicando.

Mas a diversidade celular é apenas uma parte do problema.

O próprio ambiente do tumor cria obstáculos

O câncer de pâncreas possui uma característica conhecida como desmoplasia, marcada pelo acúmulo de colágeno, fibroblastos e outros componentes ao redor das células malignas.

Essa estrutura deixa o tecido mais rígido e pode dificultar a distribuição dos medicamentos. A pressão provocada pelo excesso de tecido também pode comprimir os vasos sanguíneos, reduzindo a circulação dentro do tumor.

Com menos sangue chegando a determinadas regiões, a quantidade de oxigênio também diminui. O resultado é um ambiente de hipóxia, no qual algumas células cancerígenas conseguem sobreviver mesmo em condições desfavoráveis.

Para o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, observar o tumor levando em conta esse conjunto de características é importante para compreender sua resistência. Segundo ele, diferentes grupos de células podem desenvolver mecanismos próprios para escapar das terapias.

A mesma barreira que dificulta a chegada dos medicamentos também pode prejudicar a atuação do sistema imunológico. As células de defesa precisam alcançar o tumor para atacá-lo, mas o ambiente formado ao redor das células cancerígenas pode limitar esse acesso.

Ciência busca atacar o tumor e o que está ao redor dele

Os resultados ajudam a direcionar pesquisas para estratégias que vão além do ataque direto às células malignas. Uma das possibilidades estudadas é modificar o chamado microambiente tumoral.

Pesquisadores avaliam maneiras de reduzir ou reorganizar a estrutura formada por colágeno e fibroblastos. Outra linha procura melhorar a circulação e a quantidade de oxigênio disponível dentro do tumor. Há ainda estudos que combinam diferentes medicamentos para atingir populações celulares distintas ao mesmo tempo.

Experimentos realizados em animais já conseguiram eliminar tumores pancreáticos utilizando abordagens desse tipo. Esses resultados, porém, ainda não significam que as estratégias possam ser utilizadas de forma ampla em pacientes.

Antes de chegarem aos hospitais, os tratamentos precisam passar por estudos clínicos capazes de avaliar segurança, eficácia e possíveis efeitos adversos em seres humanos.

Também existem pesquisas voltadas para alterações genéticas. O KRAS, encontrado alterado na maioria dos tumores pancreáticos, é um dos principais alvos de estudos atuais. Medicamentos contra determinadas alterações desse gene estão sendo avaliados em ensaios clínicos.

Em uma parcela menor dos pacientes, alterações hereditárias em genes como BRCA podem abrir possibilidade para tratamentos específicos. Por isso, a avaliação genética pode ser discutida com o oncologista.

Diagnóstico precoce pode ampliar as possibilidades de tratamento

Outro desafio está relacionado à identificação da doença. O pâncreas fica localizado profundamente no abdômen e os primeiros sinais podem ser pouco específicos. Isso permite que o tumor avance antes de ser descoberto em alguns pacientes.

A doença localizada oferece mais possibilidades de tratamento, inclusive cirurgia. Considerando todos os estágios, a Sociedade Americana de Câncer estima uma sobrevida de cinco anos em torno de 13%.

Alguns sinais merecem atenção, principalmente quando persistem ou aparecem associados:

  • icterícia, com pele e olhos amarelados;
  • urina escura e fezes claras;
  • emagrecimento sem explicação;
  • dor na parte superior do abdômen ou nas costas;
  • falta de apetite;
  • náuseas;
  • surgimento repentino de diabetes, principalmente após os 50 anos.

A presença desses sintomas não significa necessariamente câncer, já que eles também podem estar relacionados a outras doenças. A recomendação é procurar avaliação médica diante de alterações persistentes.

Fatores associados à doença

O INCA aponta o tabagismo como um dos principais fatores de risco evitáveis para o câncer de pâncreas. Também estão associados à doença a obesidade, o consumo excessivo de álcool, a pancreatite crônica, o diabetes e o histórico familiar.

A idade é outro fator relevante, pois a maior parte dos diagnósticos ocorre depois dos 60 anos.

Paciente também tem direitos

Após o diagnóstico, o paciente pode ter acesso a direitos previstos na legislação brasileira. Entre eles está o prazo de até 60 dias para o início do primeiro tratamento pelo SUS, contado a partir do registro do diagnóstico no prontuário, conforme a Lei nº 12.732/2012.

Em situações de suspeita de câncer, a Lei nº 13.896/2019 estabelece prazo de até 30 dias para a realização dos exames necessários à confirmação, nos casos previstos pela legislação.

A legislação também prevê, conforme os critérios de cada benefício, possibilidade de acesso a benefícios por incapacidade sem carência para pessoas com neoplasia maligna, saque do FGTS e isenção do Imposto de Renda sobre aposentadoria, pensão ou reforma.

Laudos médicos, exames e documentos que comprovem o diagnóstico devem ser preservados pelo paciente para facilitar o acesso aos direitos.

O estudo da Cell Reports não representa, neste momento, uma nova terapia disponível contra o câncer de pâncreas. A contribuição da pesquisa está em mostrar que a doença precisa ser compreendida a partir de diferentes elementos que atuam simultaneamente: a diversidade das células tumorais, a barreira formada pelo tecido ao redor delas e as condições de pouco oxigênio.

Essas descobertas podem orientar novas pesquisas em busca de tratamentos capazes de atingir não apenas o câncer, mas também o ambiente que ajuda a protegê-lo.

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